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Desde 17 de Agosto 2012

sábado, 20 de abril de 2013

LABIRINTO DE PALAVRAS um novo livro de Conceição Oliveira

 

Prefaciado pelo poeta Xavier Zarco LABIRINTO DE PALAVRAS é uma obra poética que se encontra dividida em três ciclos não completamente fechados: CATARSES -DAS SAUDADES … DOS AFECTOS - MOMENTOS E ESPAÇOS.

O título traz-nos, desde logo, uma ideia dual, um desígnio que a palavra em nós desperta: o Labirinto de Creta (onde existiu, segundo a mitologia clássica, um Minotauro sanguinário…e o estratagema de Ariadne para que o seu amado Teseu pudesse regressar, caso escapasse ileso do confronto com o monstro, um simples fio que o guiasse na saída…por outro lado, e, ainda, sob a égide da mitologia grega, podemos relembrar as personagens de Dédalo, o arquitecto e seu filho Ícaro, sendo este último, inclusive, referido no poema intitulado, justamente, ”Labirintos”).

Há ainda outras referências clássicas nos poemas “Em busca de Cnossos” e “Mar de Creta”.

O labirinto, então, como caminho inçado de paredes intransponíveis obrigando-nos a voltar atrás repetidamente, desorientando-nos e perdendo-nos. Metáfora perfeita, quase obrigatória, para a complexidade e as aporias da vida que frequentemente nos oferece, a par das alegrias e prazeres, sofrimentos incompreensíveis. Insuportáveis por vezes.

O pensamento e o sentir como labirinto onde nos podemos enredar, porque muitas das questões sobre a existência, a vida e a morte conduzem a becos sem saída, a mistérios paredes contra os quais não temos defesa. A ansiedade, a angústia e o sofrimento psicológico estão sempre no caminho deste “LABIRINTO”.

Os medos e as revoltas fazem-se sentir não só através de um Eu lírico mas também incidindo sobre preocupações alargadas aos males sociais, ao sofrimento alheio. (“Meninos de Rua”; “Aos Meninos do Silêncio”; “Campos vazios”; “Pássaros do vazio”;)

Podemos constatar ainda que existem nesta obra “laivos ideológicos” (“Cecília Sacramento”; “Catarina Eufémia”; “25 de Abril”; “1º de Maio”; “Este é o tempo”) entre outros.

Se por um lado se sente uma necessidade de exteriorizar a memória, dizendo-a através da palavra poética, organizando assim a matéria: sombras, escombros, ruídos, imagens…, num autêntico labirinto, por outro vai-se criando a precisão do voo, o sair dessa mesma criação.

Este movimento de saída está bem patente no ciclo com que a obra finaliza: “Momentos e espaços” tentando dizer que, ainda que partindo, esse instante é sempre um ponto onde urge regressar. A memória vai-se fazendo, reorganizando, assumindo-se como pedra basilar dos poemas. É pois uma construção de memória, em tempo real, psicológico ou fictício, da própria poetisa ou da sua imaginação. Tanto faz a quem lê. Não carece dessa informação, antes precisa de entrar por entre as palavras e descobrir essas pedras que ergueram o LABIRINTO onde as asas se escondem…

 

Conceição Oliveira

 
 
 
 
 
LABIRINTOS

 

Soprava o vento

Era o Sul

Agreste, sibilante

Tempestade vacilante

 

Mau tempo anunciava …

 

Acesa a discussão

Mergulhámos

Em ruas de podridão

E perdemo-nos…

No vazio

Dos labirintos

De Ícaro

Iniciámos o caminho

Da solidão

A sombra

De paixões acontecidas,

Na volúpia do passado

Reciclámos.

 

E foi Assim, que,

Nos labirintos

Da saudade

De carícias esquecidas

E do amor cruzado

Voltámos...

 

Conceição Oliveira in “LABIRINTO DE PALAVRAS”

 
 
 

AMANHECER NA DISCÓRDIA…

 

Sempre que amanhece

Em tempos de discórdia

A luz incerta do dia

Reactiva as dores da véspera

Folheando as palavras

Esquecidas

Na diáspora

Proferidas

Num lamento,

A manhã

Apodera-se dos meus ais

E toma o teu lugar

Os sorrisos

Que fertilizavam a memória

Na ferocidade do tempo

À passagem dos vampiros

Embalam-me o pensamento

E a manhã assimila

E comove-se

Do meu lamento.

 
 
 

CARLOS LOBATO um autor presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA


Carlos Lobato
VELAS

Um fosforo.
O cheiro do enxofre.
Uma chama.
Uma vela.
Um bailado.
Uma chama.
Um crepitar,
Tremulo,
O meu desejo.
O nosso silencio.
Dedos.
Pontas de dedos.
A pele.
Nua.
As paredes.
As sombras.
A luz tenue.
Os labios.
Os beijos.
Um bailado.
Um gemido.
Rugas do corpo.
Entrar em ti!
Um bailado.
O meu desejo.
O teu desejo.
Uma chama.
O cheiro.
Tudo.

30 MARCO 2013
 

JOÃO RAIMUNDO GONÇALVES (jrg) um autor presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA


    João Raimundo Gonçalves
 
 
PROCURAM-SE VIVAS!...
**
procuro
uma ou mais ninfas que inspiradas
na arte de fixar actos d'amor
enquanto eu penso e as palavras furo
por entre rimas loucas afiladas
o seu pincel ou traço lhes dê a justa cor
*
quero encontrar
uma ou mais dessas musas fascinantes
olhar de fogo sorriso lascivo
que me pintem o fascínio de tanto amar
quando o poema alvo dos amantes
seja da cor e traço tão de tanto mais cativo
*
almejo
rever lindas Tágides subindo o grande rio
cantando as mágoas do amor
agitando meus versos com um doce beijo
colorindo o desejo a sangue frio
como quem pinta no sofrimento a própria dor
*
venham tão belas
cobertas tão só da mais pura poesia
sorrisos luz beijos de espuma
pintando palavras com brilho de estrelas
procuro no vento a fantasia
capaz de varrer para longe a triste bruma
*
quero a artista
capaz de pintar a alma do poema
onde as sílabas se entrelaçam
seguindo o rasto que deixo como pista
e me ajude a decifrar o teorema
que é o amor o sexo o beijo que tresloucam
*
doce louca orgia
que cada palavra provoca numa outra
sob o efeito do retrato desenhado
dar a sentir a paixão que se solta da magia
nada de obsceno que seja contra
a sensual devastação do fogo alastrado
*
há por aí alguém
que ouse desventrar no poema sua nudez
a preto e branco ou colorido
se for de arco-íris que venha também
se embrenhe em natural placidez
que o acto de amor encerra após vencido
 
 

PAULO HENRIQUE FRIAS um autor presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA


Paulo Henrique Frias
Agonia Citá

Cresce a cidade,
decresce a idade
e a sensibilidade
vive à flor da pele.

Aumenta o barulho
aumenta a fumaça,
de trago em trago
vamos indo embora.

Há antipatia de graça,
ausência de calma na correria.
A hora é, infelizmente, agora
poucos são filhos da virgem Maria.

Acotovelam-se os silêncios,
debruça-se a impaciência.
Nasce o ovo da serpente,
a ignorância.
 
Surge a cidade excludente,
darwiniana.
Basta a espécie
demasiada humana.

Ganância,
vingança,
chuva ácida
e tâmaras.

Povo,
massa amorfa.
O inferno de Dante
emana!

DENISE ALVES DE PAULA uma autora presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA.

Denise Alves de Paula

CÉU PINA uma autora presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA


Céu Pina
À minha porta

Segredos...
Sinais escorrem da caneta,
Tinta remexe sequelas,
Caídas num pântano de desejos.
Abri-te a minha porta,
Em flecha de Amor.
Tuas mãos de seda,
Cobriram meus medos.
Sombra que bebeu o Sol,
Ancorei no teu cais,
Labirinto de atracção.
Choro a voz do silêncio!
Sou o que sobrou do tempo,
No olhar pedaços meus,.
Sobras de sonhos...
Corpo rasgado...
Em páginas vazias.
Despida de ilusão,
Vestida na voz de uma lágrima.
Olhos sãos pétalas ressequidas,
Dor em cinza de magoas.
Grito um rio de solidão,
Rompendo do meu corpo.
Peito, peso do mundo.
Soluços em som de fado.
Restos de chamas,
Mar profundo.
Sonho sepultado,
Chorando sobre o meu corpo,
Na despida,
À minha porta...
 
 

MARI ALVES uma autora presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA


Mari Alves
Vem logo

Diz pra mim
Que me quer
Que será
Somente meu
Eu te quero
Te espero
Vem logo
Sem demora
Pode chegar
Qualquer hora
Estarei aqui
Pra você

 
 

IMARA IONE VIEIRA uma autora presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA


Imara Ione Vieira
 
 

DULCE MORAIS uma autora presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA


   Dulce Morais


Sentir

 

Melancolia
Saudade do que passou
Pungente sentir


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BRUNO JUNGER MAFRA um autor presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA


   Bruno Junger Mafra



LUA CHEIA

Farol da noite
te amo
agradecido
por lembranças
descalças
canções de longe
formação de sonhos
à sua luz

Amo
seus pássaros
visíveis e claros
seus raios de cores
em fachos distribuidos
em noites azuis

Farol da noite
versos de amor
se formam
à sua sombra
e cristais dos beijo
s e íris mágicas
de olhos em sorrisos

Farol da noite
réstia de esperança
resgate de alegria
no escuro da vida
entrecortada
muitas vezes
pela ausência
das palavras

 

GEANE MASAGO uma autora presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA


   Geane Masago

Absolvida

Não é preciso eu omitir
esse desejo louco
que trago que trago por ti
que me entorpece e me assanha.

Não me julgo.
Se sua boca me põe louca,
se sua língua me desliza inteira.

Se suas mãos leves e rudes
me roçam e crispam os pelos,
percorrem soltas sobre minha carne,
tocando-me toda neste meu corpo seu!

Não me condeno
se voce é o tudo
o que quero em mim.

Geane Masago
(19-04-2013)

 

sexta-feira, 19 de abril de 2013

CARLOS MANUEL ALVES MARGARIDO um autor presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA


Carlos Manuel Alves Margarido
Tiras

Há um luar novo
Nesta sombra velha
O escuro engole as nesgas
Esfarrapadas de luz
Flutuam janelas
Vestidas de estrelas
Véus semiabertos
Nos rostos
Explode o foguete
Nos salpicos do aspeto
Palmas sorrisos nunca vistos
Redopiam as linhas da pele
Despem a verdade os corpos
Tudo se desfez um de cada vez
No pó que leva o tempo no vento
 
 

FERNANDO FIGUEIRINHAS um autor presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA


Fernando Figueirinhas
TINTAS DUM PINTOR

Inconformado com a paisagem à volta,
Olho o tempo parado na tela em branco -
Pigmentos inertes espalhados na palheta
... Esperam o toque mágico do pincel.
...Alheio diverso invade-me a alma
Neste estar – pasmo da alma irrequieta,
Adverso ao meu querer...
Avanço, recuo e hostilizo a tinta por sair!
Vontade de ir – partir para um destino
Sem volta avança-me num ímpeto;
Incontrolável sorte lançada a destino incerto.
... Surgem figuras, abstrações de fantasiosa
Realidade, ocultas a meu desatento olhar,
Desafiam-me o jeito de nelas pensar.
Cravo na tela os pincéis desta vontade;
Mancho de tinta o branco da tela!

Fernando Figueirinhas

CLAUDEMIR GERONAZZO MENA um autor presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA



Claudemir Geronazzo Mena
Acenos

Há em mim
um pressentimento
intuição branda velada
no meu sentir

Segredo em ti
no coração guardado
pulsando calado
que estás me amando

Temes falar
revelar que entre nós
algo assim natural
pudesse existir
 
Posso notar
nas palavras serenas
gestos e acenos discretos
na ternura do olhar

Claudemir Geronazzo Mena
Men@
®
 
 
O MeNiNo SeM JuIzO foi escrever versos nas estrelas.
Em memória dele, continuaremos a publicar as suas poesias, algumas já publicadas, outras inéditas, para que o tesouro que ele nos deixou continue vivo.
 

Dulce Morais

JONAS R. SANCHES um autor presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA



   Jonas R. Sanches



Despido de Mim

É a vida em fluxo
e os sentimentos, ah eles causam
um certo refluxo
de um jeito que corrói
toda sinceridade existente.

É a vida em fluxo
e os sentimentos são flores lacrimejadas,
coisas que fogem a minha alçada
quando me exponho ao verdadeiro
quando queria ser como pedra de gelo;

mas, é somente a vida em fluxo
e é lancinante a recusa
e deixa em fragmentos e desuso
tudo aquilo que acreditei algures,
mas agora é só um grande vazio.

É a vida agora sem nenhum fluxo
é a cor parada e esquartejada tão só
e tudo o que foi belo e sincero da dó
quando observado profundo no espelho
que reflete o oculto dos olhos vermelhos.

Jonas R. Sanches

Imagem: Google

 

SÉRGIO LIZARDO um autor presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA


Sérgio Lizardo
 
TRANSFORMAÇÃO

A minha voz, transmudada por ti,
é mesmo feita de carvão
e, com vontade para que assim seja,
o teu ouvido é uma folha de papel.
No meio dela, sussurrando só,
desenho os teus lábios
e, entre um e o outro canto deles,
uma curva. Como se sorriso fosse.
Como o sorriso que tu dás então:
no polegar que te cobre a boca
e na palma que traz o teu rosto.
Para te beijar. Mas beijar mesmo.

Que platónico não sou, e te desejo,
e te quero: grudada na minha alma.

Sérgio Lizardo

 

MARIA ELISA RIBEIRO (Marilisa Ribeiro) uma autora presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA


Maria Elisa Ribeiro
MEPEMA

Negra, linda linda…olhos doces de mamão maduro
a cheirar a café moído…
Seios túrgidos, ancas abundantes como floresta tropical,
... davas-me teu braço amigo e um ombro que me abrigava de qualquer perigo.
Minha negra ama, branca na pureza do coração…
… força de árvore do mato
possante, preso a raízes de séculos vivos telúricos.
Olhar ímpar…
Mãos afagantes…cheiro a mamão e bananas delirantes…
Refúgio de momentos-que-foram-Momento –Vida…

Mepema cantava sons de encantar menino- branco -a -dormir
sob o dolente som do tórrido sol das brisas equatoriais…
…e banhava-se nos areais de búzios inesquecíveis
que o mar abandonava
às imprevisíveis toadas
de ondas de espumas coloniais.
 
A floresta falava linguagens de árvores húmidas…
As cascatas desprendiam-se de furiosas ribas…
Mepema ensinava o segredo dos medos da vida,
escondidos entre velhas ramas de folhas velhas e traiçoeiras.
Suas negras mãos cansadas colhiam os frutos da mensagem telúrica
que lhe marcava o sabor da vida…
Jazem memórias no caminho onde ficaram destroços
que a palavra redime,
nesta inocência que registei em papiros
nos esgares das manhãs-percurso-dos-dias-infância.
No peito, tenho pregas do mar, que amaram borboletas serenas
como lembranças de Mepema…

Sei que sua alma cavalga pelo Mistério
que me abraça , ainda, na ternura de seu olhar-refrigério…

Nos retalhos de um místico mapa, há areias de gaivotas pousadas no fogo da profecia,
que exalavam seus olhos de harmonia
quando afagava meus loiros cabelos,
ora esbranquiçados pela brisa dos tempos
no útero do Passado que é o Presente dessa alegria.
 
O mar canta areias doiradas nos lírios do peito de Mepema,
na sanzala que foi jardim de Sonho da Aurora,
da “Roça”-d’Outrora…

Prossigo no caminhar pelas abas do tempo
a procurar palavras que endireitem
o fio-de-prumo da mensagem daquela alma serena.

Maria Elisa R. Ribeiro
(Marilisa Ribeiro)
CQ16-Jan/013-mqc

Nota: poema de homenagem à minha ama negra de S.Tomé, que tanto amor me deu.
 
 
 
 

ENIDE SANTOS uma autora presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA


Enide Santos
Pensamento

Pensamentos
São letras
Sem cores
Sem contornos

São palavras
Não concebidas
Não editadas
Não pronunciadas

São expressões
Da alma
Dos olhos
Do corpo

São verbos que tem vida própria
veem quando querem
Não se consegue controlar
ditam para os sentimentos
até onde devem chegar

Pelejam ferozmente
camuflam-se um no outro
Alastrando-se por todo o ser
montando uma forma de viver.

Enide Santos 19/04/13
 

LUCIANA SALDANHA LIMA uma autora presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA




Luciana Saldanha Lima

Pode ser amor

Quando amo
Talvez me perco
Na intensidade de ser
No carinho de conviver
Na alegria de saber
No tempo do querer
Que agora presente se faz

Nas mais diferentes horas
Que marcadas não estão
Elas acontecem
Quando amo
Sou flor
Sou rosa de amor
Que dança nos caminhos dos ventos
Trazendo alegria aos pensamentos
Diluindo as tristezas
Nas ondas disformes
Do oceano das suas emoções
Quando amo
Tudo se torna imensidão
Nossos corpos mais do que unidos estão
Tornam-se imortais
Pois juntos estamos no paraíso
No universo que faz
Tudo isso pode ser
Quando o amor acontecer

Luciana Saldanha Lima

 

TERESINHA OLIVEIRA (Terê Oliva) uma autora presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA


   Teresinha Oliveira



SUPERLATIVO

Você é um homem muito feio!
Que homem mais feio você é.
Fique quieto por aí
No banco do botequim sentado
Devorando-me com esse olhar de ressaca amanhecida.
Não arrede pé, porque daqui fujo
Como o diabo da cruz no seu menor mover.

Muito feio é você todo
Sem pedaço algum que amenize outro pedaço.
Continue mesmo assim, a ver o mundo tropeçar
Triste figura.

Chance alguma tem ao menos de um sorriso
Que por sorte sua, piedade minha
Faria você sentir-se bonito.

Ilustração de Denis Zilber.
Artista Israelense

Terê Oliva
 
 
 

ANA STOPPA uma autora presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA

 


   Ana Stoppa
 
 
 
 
 
 



VALDECIR DE OLIVEIRA ANSELMO um autor presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA




Valdecir Anselmo


Labirintos circulares

Quanto mais alardeamos algo e insistimos em apregoar aqui ou ali, talvez seja sinal de que não intentamos convencer os outros, mas a nós mesmos, como uma espécie de lembrete, um memento fixado em suportes ao longo do caminho, pois muitas vezes caminhamos em círculos, espiralados ou concêntricos, e nos deparamos com o que nós mesmos deixamos transcritos, para que não nos esqueçamos das nossas próprias ponderações e para, talvez, nas entrelinhas do que nós mesmos escrevemos, com letras quase indeléveis, encontrar um sinal que indique a saída desses labirintos circulares.

Valdecir de Oliveira Anselmo
... Pensamento – 19/04/2013

Em:

http://valdecirdeoliveiraanselmo.blogspot.com.br/

Blog do Escritor, Poeta, Bibliotecário, Bibliófilo, Filósofo (Livre Pensador) e Diletante de toda a boa Arte Valdecir de Oliveira Anselmo, com Poemas, Pensamentos, Contos, Crônicas, Animações e Desenhos Digitais do autor. Vós que amais a Literatura sejam os meus convivas e comensais nesse lauto banquete das Letras. A opípara mesa está servida. Banqueteiem-se.
 
 


SOLANGE MOREIRA DE SOUSA uma autora presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA



Solange Moreira de Souza
AMANDO O AMOR

Sinto um tempo que passa.
Passa e estou vendo,
Muito do presente que já
Passado está se tornando.
Vou amando.
Amando a vida.
Amando o amor.
Intercalando lembranças,
Valorosas.
Muitas não tão boas.
Outras que jamais sairão
De dentro do meu coração.
A minha alma amorosa,
Guarda a essência dos
Sentimentos.
Guarda o amor.
Um antigo e lindo
Amor.
Este com certeza
Fará sempre parte
De um passado e
Um presente em
Minha vida
Mas o tempo não
Paralisa.
Idealizo o meu hoje
Com muito carinho.
Sigo o meu caminho.
E nele estarei,
Amando o amor.

Solange Moreira de Souza
19.04.13

ANTÓNIO CARLOS GOMES (tony-poeta) um autor presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA


Antonio Carlos Gomes




Chove, dança de pingos.
Melodias do passado
Renascendo doces sonhos
No sorriso da madrugada.
 



 
 
 

FRANCISCO COSTA um autor presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA



Francisco Costa

 

Hoje acordei pensando em ti,
concretude de carne e calor,
diferença pretendida
boiando no mar do tudo igual.

... Tens no corpo o que não sei,
palavras postas na surpresa,
gestos de pretensões, olhar
de só desejos no horizonte.

És ilha, oásis, fonte, trilha
onde meu corpo se sacia
e se abriga, como perdido
que além se encontra.

Que dizer de ti, fada, musa,
maga no exercício da sedução
que me enleva escriba em ação
descrevendo o que só presumo
não sei?

Que coisa é essa que me toma
me anula, me faz só sombra
delineando intenções
de mais que sombra
habitando teu corpo?

Pensei-te mulher, mas...
És ilha, oásis, fonte, trilha;
fada, musa, maga...
Em gestação de prazeres.

Acredito que te amo.
E do amar mais simples,
feito de silêncios e olhares,
só desejos e contemplação,
todo hormônios e coração.

Francisco Costa
Rio, 18/04/2013.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

O PERDÃO - Catullo CEARENSE


João Carreiro era um carreiro
proprietario de um carro
e de uma junta de bois.
Com a dona Chica Constança,
com quem se casou depois,
recebeu-os como herança
do fallecido Ramalho,
seu padrinho e seu avô.
("Avô? Mas de quem?"
Já estou contando na certa
com a tua interrogoção!)

A penna não se explicou.

Mas tudo fica explicado
n'uma breve explicação:--
o velho, o avô fallecido,
era o da moça!... (Percebe ?
Não era avô do João!)

O velho que já sabia
que o rapaz gostava della,
e ella, --do rapagão,
         não tendo mais que deixar,
         morrendo, deixou-lhe a neta
         e mais os bois e o carrão.

A Constança, com franqueza,
a neta do Zé Ramalho,
não era a flor da belleza,
mas era a flor do trabalho.
Todo o thesouro, a fortuna,
todo o bem do João Carreiro,
desse homem trabalhador,
todo o affecto, o seu amor,
todo o seu grande ideal,
          era a Constança, o seu carro,
          a bella junta de bois
que estava lá no curral,
          e o seu templo-- a sua choça,
          a casa mais conhecida
          de toda a gente da roça.

Dizem mesmo algumas boccas
que o nosso bello carreiro
foi um tanto interesseiro,
pelo carro e pelos bois...
          -- Mas não amava a Constança?!

          -- Amava... Mas todos dizem
que o amor veio depois.

Quem visse aquelles carinhos
com que tratava o seu gado
ficava desconfiado!

Os bois não eram creanças,
mas também não eram velhos,
pois quando inchavam nas pernas,
para fazerem apárro,
e arrancavam do lameiro
as duas rodas do carro,
com os nervos dos seus pescoços...
            eram bem moços...bem moços!...

Um chamava-se Laranjo
e botal-o no varão,
era um trabalho estupendo,
eram horas de canceiras;
pois quando o boi presentia
que o dono vinha agarral-o,
corria como um cavallo,
pelas mattas e capoeiras.

Ao passo que o Beija-Flor,
carinhoso, terno e leal,
bastava ouvir o seu grito,
accorria logo afflicto,
para encostar-se ao varal.

Emquanto para o Laranjo
fazer uma simples coisa
era preciso que o dono
se esfalfasse de gritar,
         o Beija, sempre fagueiro,
         obedecia ao carreiro
         por um simplissimo olhar.

Tudo o que o dono dizia,
gesticulando ou falando,
o Beija-Flor entendia.

Quando a carroça cahia
n'um caldeirão do caminho,
o Beija-Flor já sabia
o que tinha de fazer,
sem auxilio do ferrão.
         E quando o outro fingia
         que estava fazendo força
         para arrancar a carroça
         de dentro do caldeirão,
         n'um gemido que soltava,
         parece que assim falava:
         "O Laranjo está fingindo!

         "Não está puxando, nhôr, não!

Então o cabra levava
tanta varada e ferrão,
que o sangue logo espirrava,
a ensanguentar todo o chão.

Á noite daquelle dia,
o Laranjo recebia
metade só da ração.
E ainda mais: por pirraça,
na noite daquelle dia,
o Beija-Flor só comia
o raro capim mimoso,
que é o novinho e o mais gostoso!

Mas o boi não se emendava,
porque gostava da turra!
Já tinha o ventre lanhado
e o pescoço encalombado
de chupitar tanta surra!

De uma feita, n'uma luta,
n'um combate desastrado,
O Laranjo ia matando
o pobre Beija!...  Que horror!!

         O diabo tinha ciume
         té mesmo do Beija-Flor!!

Foi um combate horroroso!...
Foi um prelio desigual!...

         Em menos de dois minutos,
         era uma vez um curral!

João, que estava sesteando
lá dentro, em sua tapêra,
ouvindo aquelles gemidos,
veio saber o que era.
Ao ver os dois animaes
com os chifres emmaranhados,
como dois allucinados,
ferozmente ensanguentados,
e vendo que o Beija-Flor
não lhe levava vantagem,
e já ia, pouco a pouco,
arrefecendo a coragem...
        ficou tão doido, tão louco,
        que dando um murro tremendo
        no vazio do rival,
        recebeu, como resposta,
        do Laranjo, renegado
        uma chifrada fatal!!

O golpe foi tão violento
que o homem titubeou,
e, como se fosse um morto,
quasi morto alli ficou.

Quando, mais tarde, a mulher
deu alli com o seu marido,
com a rigidez de um cadaver,
naquelle chão estendido,
          n'um berreiro abriu a bocca,
          e lá foi dona Constança,
          correndo como uma louca,
          em altos gritos afflictos,
          alarmando a visinhança!

Foi, sem exageração,
          qual se tivesse explodido
          a cratera de um vulcão!

Pois tanta gente sahia
de toda a parte a gritar,
que até parece que o mundo,
n'um incendio pavoroso,
ia de vez se acabar!

Nos braços dos seus amigos,
           n'um abrir e fechar de olhos,
           João Carreiro, inanimado,
           foi p'ra casa carregado,
           emquanto foram chamar
           a toda a pressa o doutor,
           o medico do lugar.

Em menos de dez minutos,
já se via a tigelinha
a brivana do doutor,
muito bem arreadinha,
na porta do victimado
pataleando, a rinchar.
            ouvia-se o palpitar
            de todos os corações,
            quando o doutor se acercou
            do leito do moribundo!
            E quando, depois do exame,
            n'um sorriso commovido,
            disse aos intimos: "Perdido",
            foi um silencio profundo!!

O doutor se retirando,
e dando na brivaninha
um pequeníssimo açoite,
proferiu esta sentença: --
"Não passará desta noite!"

Desde o instante da chifrada,
o pobre do João Carreiro
tinha perdido o sentido!!

Tinha a palavra perdido!!...

Mas, ás tres horas da tarde,
indo-lhe alguem perguntar
se, antes do seu trespasse,
queria que se matasse
o boi, que já estava prêzo
no ranchão lá do curral,
recuperando os sentidos
em voz baixinha falando,
disse, quasi soluçando:
            "Deixem viver o animal!...

            "Matal-o?! Matal-o?! Não!!

            "É preciso que elle viva,
            "para poder perdoar
            "toda a minha ingratidão!

"Se eu quizesse me vingar
"dos coices e ponta-pés
"dos homens, desses crueis,
"que escoucearam minh'alma,
"talvez por muito os amar...
             " tinha muito que matar!!

"Entre o grande racional
"e o pobre desse animal,
"qual foi mais atroz? Qual foi?!

"Amigos!... Se eu fosse boi..."
Ia dizer outra coisa,
mas já não poude falar!

A tarde se despedia!

A torre da Capelinha
que em sua triste alegria
ao pé do monte floria,
             sonorizava no bronze
as seis lagrimas choradas
             na hora da Ave-Maria!!

Lá, no fundo do curral,
como longinquo trovão,
veio um profundo mugido
ou no perdão de um conforto!

             O que seria?!   O Perdão?!

             Quem sabe ?!

                        Só Deos e o morto!!!

Catullo Cearense
in POEMAS BRAVIOS (1928)

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Catulo da Paixão Cearense (São Luís do Maranhão, 8 de outubro de 1863 — Rio de Janeiro, 10 de maio de 1946) foi um poeta, músico e compositor brasileiro. A data de nascimento foi por muito tempo considerada dia 31 de janeiro de 1866, pois a data original foi modificada para que Catullo pudesse ser nomeado ao serviço público.
Filho de Amâncio José Paixão Cearense (natural do Ceará) e Maria Celestina Braga (natural do Maranhão)
Mudou-se para o Rio em 1880, aos 17 anos, com a família. Trabalhou como relojoeiro. Conheceu vários chorões da época, como Anacleto de Medeiros e Viriato Figueira da Silva, quando se iniciou na música. Integrado nos meios boêmicos da cidade, associou-se ao livreiro Pedro da Silva Quaresma, proprietário da Livraria do Povo, que passou a editar em folhetos de cordel o repertório de modismo da época.
Catulo da Paixão Cearense passou a organizar coletâneas, entre elas O cantor fluminense e O cancioneiro popular, além de obras próprias. Vivia despreocupado, pois era boêmio, e morreu na pobreza.
Em algumas composições teve a colaboração de alguns parceiros: Anacleto de Medeiros, Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Francisco Braga e outros. Como interprete, o maior tenor do Brasil, Vicente Celestino .
Suas mais famosas composições são Luar do Sertão (em parceria com João Pernambuco), de 1914, que na opinião de Pedro Lessa é o hino nacional do sertanejo brasileiro, e a letra para Flor amorosa, que havia sido composta por Joaquim Calado em 1867. Também é o responsável pela reabilitação do violão nos salões da alta sociedade carioca e pela reforma da ´modinha´.