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sexta-feira, 3 de maio de 2013

SAUDADE COM PERFUME DE CAMÉLIA - Teresinha Oliveira


 
Teresinha Oliveira
 
SAUDADE COM PERFUME DE CAMÉLIA
 
Nas ruas de verão vejo muitas camélias enfeitando vestidos, decotes e cabelos de mulheres floreiras, que perseguem a moda das flores, sem nunca terem regado uma. Provavelmente desconhecerem o nome das singelas camélias de tecido que levam a passear e devem confundi-la com sua irmã rosa, a preferida.
Duas irmãs bem diferentes, mas igualmente lindas. Uma simples, sem alardes ao se mostrar, flor criança e faceira que parece correr descalça pela relva. A outra, exuberante, com astúcia feminina entorpece os sentidos do observador descuidado e dissimula seus espinhos como perigo menor. Só o sangue nos dedos o livra de seu fascínio.
As camélias são flores calmas, sem surpresas, que me recordam minha mãe que hoje, nos campos do Senhor cultiva suas flores pelo amor escolhidas.
Qualquer dia vou oferecer-lhe camélias. Colocá-las aos pés de um Anjo Mensageiro e torcer para que as receba. Com sorte, talvez assim perdoe meus impacientes desamores, um pouco só que seja.
Ela tanto as admirava que casou-se com um virginal buquê de camélias brancas, e carregou-o consigo através das décadas de um casamento feliz. Naturais, é claro, sempre afirmava, porque na época as camélias eram corriqueiras nos vasos dos floristas e nos canteiros das esquinas.
Se jogou fora o buquê a murchar, ou o atirou às amigas solteiras para o destino revelar quem seria a próxima noiva, não sei. Nem sei se naquele tempo de amor festivo já existiam esses sortilégios românticos.
O final da história do buquê é desconhecido. Ela nunca contou e eu não perguntei. Agora é tarde para essa questão, como para tantas outras...
Se eu vir uma estrela cadente, irmã distante das flores, eu peço, sem vergonha da tolice, que no limite do meu tempo cá nesse jardim de enganos, eu espante a solidão e o medo ao reencontrar minha mãe me esperando, com seu buquê de camélias brancas nas mãos.

Terê Oliva.
 
Imagem tribarte.blogspot.com

sexta-feira, 19 de abril de 2013

TERESINHA OLIVEIRA (Terê Oliva) uma autora presente na ANTOLOGIA VOAR NA POESIA


   Teresinha Oliveira



SUPERLATIVO

Você é um homem muito feio!
Que homem mais feio você é.
Fique quieto por aí
No banco do botequim sentado
Devorando-me com esse olhar de ressaca amanhecida.
Não arrede pé, porque daqui fujo
Como o diabo da cruz no seu menor mover.

Muito feio é você todo
Sem pedaço algum que amenize outro pedaço.
Continue mesmo assim, a ver o mundo tropeçar
Triste figura.

Chance alguma tem ao menos de um sorriso
Que por sorte sua, piedade minha
Faria você sentir-se bonito.

Ilustração de Denis Zilber.
Artista Israelense

Terê Oliva
 
 
 

sexta-feira, 22 de março de 2013

ASAS PARTIDAS - Terê Oliva




Teresinha Oliveira
 
ASAS PARTIDAS

 Meu coração não é mais do que
Uma ave triste
Com as asas partidas
Solitária
Que repousa nas mãos da poesia
Para não desistir de vez.






Tela de Carlos Schwabe - 1866/1926
Pintor alemão
Terê Oliva


sexta-feira, 1 de março de 2013

POEMA TEMÁTICO ~ Traição ~ Menções Honrosas


Menções Honrosas




Enide Santos
 
Tudo tem motivo
tudo tem sua razão
inclusive traição.
Se é perdoável ou não
isso quem dirá
é somente a razão.
 


Francisco Costa
 
O traidor é um homicida,
Mata deixando vivo.
Um fabricante de zumbis
De mortos vivos chorando,
Por não serem mortos
Inteiros.

Francisco Costa
Rio, 21/02/2013.
 


Antonio Carlos Gomes
 
TRAIÇÃO

Traição
É a punhalada
Da relação
Mal conversada.


Tony-poeta
 


Elian Vieira Silva
 
VERGONHA DE MIM

Traição consentida
Dilacerando, retalhando
O coração partido
Mas pulsante e intenso
Traição sem sentido
Não sua, mas minha
Que aceitando os riscos
Traio meus princípios
E te aceito Traindo
Por não poder abrir mão
Dessa louca...paixão.
 


Geane Masago
 
Traição

T*ranquei a porta do destino
R*evirei os versos e desnudei meus véus
A*cordei gralha e recebi grelhas
I*ndeléveis noites frias
Ç*ães noturnos em uivos malditos
A*mor (des)-amor que tive de matar, para dele não morrer
O*utrora não é agora! Porém ainda, meu peito chora!


Geane Masago
(22-02-2013)
 


Leny Mell
 
 ANUNCIAÇÂO   
 
Vens chegando, já estas em sua estrada.
Vem em rajadas,pausadas.
Ventos fortes, deitando a mata.
Vem assobiando,anunciando sua morte.
Entregue a própria sorte.
Vem em gargalhadas, que ecoam por toda a cidade.
É gente de toda a idade.
Vendo o vento, quebrar uma promessa.
Enquanto tocam os sinos.
E um grande abalo sismo se registra no corpo do pobre moço.
Um forte tremor abrindo o chão sob seus pés.
Anunciando a todos a traição de sua mulher.



Sandra Regina Schoenardie
 não é possível apontar os culpados pela traição. “Quem trai é culpado pelo ato em si, mas as razões que o levaram a chegar neste ponto podem envolver muita coisa. As vezes a esposa não dá atenção necessária para o marido, o namorado deixa de satisfazer a namorada, outros por não se sentirem desejados e assim por diante. “Clima da relação favorece”,,,,
 


Teresinha Oliveira
 
DOIS GUMES.
 
Faça de mim jardim e fortaleza, de granito muralhas
Com rosas amarelas, vermelhas e azuis
A brotarem na rocha viva.
Faça de mim tua pedra, tua flor
Minhas coxas tua cama, do meu corpo teu labor.
Bebe da minha boca a água sedento
De meus olhos arranca a luz
Para iluminar tuas noites insones.
Dos meus seios alimento
Sacia tua fome e a dos filhos teus.
Sangra meus pés em bolhas purulentas
Em cada milha que trilhar.
Mas não armes minha mão nem fortaleça o braço meu
Com adagas afiadas no frio fio da traição
Pois, insidioso inimigo, gota de piedade alguma
Transborda de minha taça.
Não cruzarás meus passos sem bebê-la
De vingança puro fel
Veneno em vinho diluído a desfazer tuas entranhas
Teus membros paralisar.
Cada célula de dor medonha
Murcha em esperas da clemência negada.
Quebra-cabeça de males armado, cada peça maligno dom.
Dias de arrependimento contorcidos
Só restando a ti
O da morte desejar.

Terê Oliva.





Amélia Amado
 
Traição palavra feia
Que nos faz sofrer
O coração sangrando
Muito nos faz doer
 


Teresinha Oliveira
VIDRAÇA.

Recolher os cacos da vidraça quebrada
Que não veda vendaval ou da chuva protege.

Arear tacho que na abrasão do brilho
Quebra unha e resseca mão no toque.

Varrer os resquícios que se dançou e gargalhou festa
Do chão de pedras em diagonal forrado.

Destruída cabana
Tijolos e telha em vão.

 Na traição do amor de outrora e sempre
 A vida fragmentou.

Terê Oliva.



sábado, 9 de fevereiro de 2013

ESCURECENDO...- Teresinha Oliveira

AUTOR presente na "ANTOLOGIA VOAR NA POESIA"
 
 
Teresinha Oliveira



 
ESCURECENDO...

Quando Deus me escapa, eu escureço.
Cinza, perco meus amarelos
Cor preferida.
 
 

Tela de Paul Albert Besnard (1849/1934) - França.
Teresinha Oliveira.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

CABANA DA SERRA. - Teresinha Oliveira

"POEMA DA SEMANA" 5/2013
08.02

Menção Honrosa de Participação

 
 
Teresinha Oliveira




 
CABANA DA SERRA.
 

Escrever poesia por aqui
Nessa tarde de outono, sem pressa
Com brocado de folhas aos meus pés
Torna doce a sombra
Da tristeza de não te esperar.

Ilustração de Vladimir Dunjic.
Teresinha de Oliveira.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

RETALHOS. - Teresinha Oliveira

AUTORES NA "ANTOLOGIA VOAR NA POESIA"

 
 
Teresinha Oliveira


RETALHOS.

Encontrei a bela poltrona de retalhos no folhear de minhas revistas velhas.
As que compro nos sebos decadentes no centro da cidade onde reis e nobres passearam.
Agora estão puídas de sobrados estreitos que ameaçam desabar, cuspindo sem olhar a quem atingem suas sacadas centenárias.
É lá que sempre cato e empilho o tanto que há para ler depois, sempre depois, até que um dia hora sobra.
No sem melhor a fazer, mais senti do que vi, a poltrona perfeita para um canto aconchegante onde sobre luz e inexista barulho.
Bonita, me seduziu com seu cose, recorta, corta, mede, emenda, costura, certo, errado, de novo...
Seus retalhos de paciência tornariam mais doce o pensar em nada
E no tudo, que no mesmo sempre se dá dá.
Uma mesinha ao lado com um bom romance ao alcance das mãos e um uísque sem gelo completariam meu confortável desejo.
Seria demais anexar uma banqueta para os pés inchados?

Tela de Gabrielle Bakker.
Teresinha Oliveira.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

DIA DO QUE ? DO BEIJO... - Teresinha Oliveira

AUTORES NA "ANTOLOGIA VOAR NA POESIA"

 
 
 

Teresinha Oliveira


DIA DO QUE ? DO BEIJO...
 

 Essa gente inventa cada coisa...Tem Dia das Mães, para desencalhar o estoque do Natal. Dia dos Pais, eles também merecem e as lojas de produtos masculinos idem. Dia do Zumbi, quem foi mesmo? Dia de São Pedro, São João... Aí tudo bem, porque todo mundo gosta de festa junina, única temporada do ano onde se bebe quentão e a comilança típica corre farta e variada. Cocada e paçoca tem por todo lado, mas bolo de aipim? Bem feitinho, saboroso, só de encontra por lá. Sem falar nas crianças, lindas como caipiras ricaças a dançar quadrilha para os pais e avós, que registram os desengonçados rebentos com o que há de mais moderno na eletrônica mundial.
Tem Dia dos Avós lá pelo meio do ano, Dia da Mulher, do Homem acho que ainda não inventaram. Dia da Criança, esse é legal porque a casa vira uma festa quase Natal.
Dia do Médico, da Secretária, se tem do Médico deve ter o do Dentista, do Enfermeiro e outros afins.
Dia do Professor! D...esse quase esqueci. Erro imperdoável, porque é feriado nas escolas e a meninada adora. Se as mães não gostam e se descabelam é outra conversa que aqui não cabe.
Dia do Amigo, esse está estalando de novo e só descobri ao receber alguns telefonemas dos mesmos me felicitando. O porquê, ainda não descobri, mas já eliminei alguns da minha lista: os que ligaram justamente no momento da primeira garfada do almoço, na hora do banho ou na última cena do filme - o bonitão se declara à dona da doceria ou
parte da cidade sozinho?
O pior é que se alongavam no carinho:
-Tá, muito obrigada. Você também é um amigão, blá-blá-blá. Toca o celular, mais blá-blá-blá...
Pensei se não era o momento certo para pedir as 500 pratas emprestadas que estou precisando para cobrir o cartão de crédito, mas amarelei.
Agora surgiu esse nova invencionice, o Dia do Beijo! Como se comemora isso? Saindo por aí beijando todo mundo ou só os mais próximos? O sujeito a ser beijado pode recusar a homenagem ou tem que aceitá-la passivamente? Se assim o for, empenho meu total apoio.
Dá licença, estou indo...Onde? Ora, vou comemorar com o Orlando Bloom, com o Johnny Depp, com o Santoro ...
Sapinho tem cura?

Tela de Joseph Lorusso - (Nasc.1966) - EUA.
Teresinha Oliveira.

Teresinha Oliveira.


terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Teresinha Oliveira

AUTORES NA "ANTOLOGIA VOAR NA POESIA"

 
 
 
Teresinha Oliveira



CANSAÇO DOS SONHOS.
LIVRO DO DESASSOSSEGO (182) → Fernando Pessoa.
"Antefalhei a vida, porque nem sonhando-a ela me pareceu deleitosa.
Chegou até mim o cansaço dos sonhos...Transbordei de mim não sei para onde, e aí fiquei estagnado e inútil.
Aborreço-me de mim em tudo...Não aspiro a nada...Dói-me a vida. Estou mal onde estou e já mal onde penso em poder estar."
...
Fernando Pessoa - 'O Livro do Desassossego'.

Abençoem-me Anjos do Céu! Nem tão fundo se mergulha no poço, por mais próximo ele esteja e por mais convidativas sejam suas águas frescas ou a relva circundante.
Também a nada aspiro. Nada grande que faça suar meus braços ou coração, a não ser ter olhos sãos para ler os livros que me caírem às mãos.
Um cérebro vivaz igualmente anseio, a devanear e pensar sem nada concluir, porque conclusão é prisão, e eu anseio a liberdade de ir... Para lugar algum, onde descanso.
E onde te encontro, meu caro Fernando.

Teresinha Oliveira.
Tela de Bessie Ellen Davidson - (1879/1965)
Pintora Australiana.

ÉTICA DO ESPANTO - BLOG REMINISCENTIA. - Teresinha Oliveira

AUTORES NA "ANTOLOGIA VOAR NA POESIA"

 
 
 
Teresinha Oliveira



Leia aqui.

ÉTICA DO ESPANTO - BLOG REMINISCENTIA.
Estou, num momento espantoso, e eu espantada, vislumbrando setas, direita e esquerda no labirinto montado por Lacan, cruel sábio moderno que nos prendeu, minotauros, entre seus conceitos da mente humana.
Esnobe criatura sou, que ao decifrar premissas tão claras que você Cecília nos escreveu, visto toga de doutora e fico feliz como criança que ganha doce, por tão raso entender e absoluta(mente) tudo continuar sem saber, sem sabê-lo. Mas ainda arrisco, num lampejo de presunção, a concordar com ele que hábito é ranço azedo- é isso um pleonasmo? Pouco importa.
Tem o hábito essa composição química de lodo, gosma, talvez até de medo ou desistência.
Hábito é meio-irmão do tédio, onde nada dá errado, mas também nada dá certo. É sentar numa cadeira de balanço esperando que ela te leve ao encontro do teu grande sonho, ou comer peixe espinhudo da feira semanal desejando lagosta, sem forças para pescá-la, até morrer de espinha engasgado.
O hábito paralisa, te corta as pernas e te engessa os pés.
O espanto te move, até porque arregalha olho, deixa queixo cair e muitas vezes faz o corpo pular. Leva a pensar, principal benefício, em pensamento lá atrás esquecido ou nunca ocorrido.
Talvez então, esse homem corriqueiro com um pouco de sorte e susto, se revele após espanar as teias e os fungos um homem espantoso.
Te cabe agora, que com esse assunto e gente esperta convive, me apresentar tal sujeito.
Amor.

Obra de Anne Bachelier - Pintora Francesa.
Óleo sobre tela - 25x32 cm.

Teresinha Oliveira.

domingo, 27 de janeiro de 2013

PÁSSARA. - Teresinha Oliveira


 
 

Teresinha Oliveira

PÁSSARA.



 




 Na voz tenta destino
Romã rosada, madura de caroços cheia.
Nas fímbrias da alma deseja
Além de tudo mais e apenas
Cantar.

Quando ninguém há em volta
Sossego de gente ausente, travada chave
Barulho de louça intacta e suja
Rebentam os ponteios de renda e ela canta.
Pássara

Canta pelo inato prazer de cantar.
Como se as notas fossem par, coquetes dançarinas
Que à revelia de sua vontade conduzem
No passo agudo ângulo e rastejante grave , para o esconderijo
Lugar seu, só de música habitado.

Ela, intui na cantiga a solução de si mesma
E vasculha no verso, no tom, o vibrato perfeito
Que rasgue as mordaças que a vida impõe
Angustiada garganta muda.
Teimosa contralto vasculha na noite
O palco, Terra Prometida
Onde o néctar seja abundante em gotas de som
E canções de amor.

Tela de Hans Simon Holtzbecher - (1861/1935).
Teresinha Oliveira.

sábado, 26 de janeiro de 2013

AS ASAS DE UM ANJO. - Teresinha Oliveira


"POETAR" 3/2013
26.01



 
 
Teresinha Oliveira


AS ASAS DE UM ANJO.
 
 
O murmúrio das asas de um anjo
Tocou a minha face.
Ficou mais fácil respirar e virar de lado.

Sua sombra polvilhou com noite a insone dor
Que cochilou entre suas mãos de nuvem
E me deixou dormir.

Tela de Abbott Handerson Thayer (1849/1921)- EUA.
Teresinha Oliveira.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

MAR DE TUBARÃO. - Teresinha Oliveira


 
 
Teresinha Oliveira
MAR DE TUBARÃO.

Não sei em que ano ocorreu, nem sei se esse ano existiu, nem ninguém sabe, mas todo mundo viu, ou conhece alguém que jura que viu. Onde, também não conto para não mentir. Mas de algo sei diante dessa minha infinitude do não saber, foi numa grande cidade, como Rio, Salvador,Niterói; Niterói não, faltam alguns milhões para ser grande como devo contar. México tem demais, Niterói de menos onde o fato se deu.
Também tem mar, porque onda forte preciso na história. Onda que leva e traz gente, que salga cabelo de branco e corta lábio, que dá paisagem de arrebatar e faz pensar em morte. Só mar.
Rio é mais calmo, afoga gente eu sei, nesse jeito mentiroso de ser doce. Tem peixe mole, que desmancha em paladar diferente. Tem margem demais que mar não tem, árvore à vista, morrete de terra, tem casa ao olho, até gente quase sempre tem.
Mar não, mar é aquele estirão d'água sem fim. Bicho traiçoeiro- repete mãe cuidadosa que mete medo em filho sem juízo- que encosta lá no céu numa reta horizontal; já aí foi professora que ensinou pra ninguém mais confundir com vertical.
Gente, só na praia distante, bem longe nesse mar que conto. Mar de verdade, com peixe grande que não se vê, só se imagina no fundo; tubarão, lula gigante, arraia maior ainda. Peixe pequeno também, colorido e bonito que em aquário não vive, morre de saudade do sal.
Com essa saudade toda, das suas íntimas águas, Valentina tentou morrer no mar. Sozinha remou o barco, braços e coração forte, decidiu numa tarde qualquer. Cansou da gente toda. Gente demais nas avenidas, no elevador, nos pontos de ônibus, no teatro, na filas do banco, na família, na sua cabeça. Formigueiro onde não era rainha. Formigueiro não que formiga não faz barulho, junta exército ou mutirão de comida em silêncio. Igual a colmeia é melhor sentimento porque abelha zune. Faz mel cantando e assusta pela picada doída que até a alguns manda para hospital.
Formiga é inseto como barata, menos nojento mas fácil de esmagar sob pé irritado.
A gente na cabeça de Valentina fazia barulho como abelha. Opinava e dava conselho certeiro para seus amores, mas erravam o alvo. Sua cesta de palavras transbordava, mas as dele ali não mais cabiam. Tinham se ido, graníticas letras se juntando e formando frase de decisão, que no fundo de sua alma caiu dizendo não. 'Não te amo mais'. Como não mais? Mais? Quando esse mais se tornou menos? Ela não percebera. Sempre acreditou no milagre do renascimento. O feto amoroso saindo do coração dele numa anatomia maluca; mas ele continuava lá dentro, gerado e engordando, esperando outra mulher para ser parido, aquela pela qual ele o arrancaria de dentro, com as próprias mãos.
Não ela, não mais. O que fora para ele? O que além de adorno p'rá olho e massa de pão cheirosa, pudim de leite condensado que ele gostava de comer nos sábados à tarde antes do futebol?
Isso tudo pensava no cair da nuvem, e correr pelo mar. A cidade ficando p'rá trás, cidade de areia, de abelha, de solidão que ela não mais suportava.
Foi difícil sair do sonho, pular fora da imagem onírica qual tela de surrealista pintor, como daqueles que ela tanto gostava. E ele também. Musa de Dali, agarrada em seus bigodes, tentou. No óleo ficou muito tempo esperando ser amada como Gala, e muito ainda mais esperou. Vã espera diante da realidade que a acordara para dançar na fogueira das poucas palavras que ele tatuou: 'Eu não te amo mais'. Como eliminar esse eco dentro de si? 'Eu não te amo mais.' Como esquecer o timbre grave da voz dele? 'Eu não te amo mais.'
Talvez tenha até mesmo tentado esquecer, mas cansou, como moribundo cansa ao tentar enganar a morte e mais sofre até expiar enfim, no suspiro resignado da inutilidade.
Ao cair na maré longe, ironicamente só um pensamento restou. O medo dos tubarões. Sorriu na água cálida num resquício de si mesma. Que diferença faria? Mas era melhor morrer com todos os membros, sem mordida do bicho, ir dormindo no sono que o frio traria.
Nadou para longe do barco, só um pouco porque mais não precisava diante da decisão tomada. As ondas não eram tão fortes ou frias quanto pensara, 'Eu não te amo mais', nem o céu tão escuro, 'Eu não te amo mais', nem o sono chegava, 'Eu não te amo mais', como morrer acordada? Não fora esse seu plano. Se ele não me ama mais, por que o amo tanto?
Ao perceber um pedaço de madeira vindo em sua direção, flutuando nas águas mornas, imaginou ver a barbatana de um tubarão. Nadou de volta ao barco.

Tela de Edward Cucuel - Pintor Americano - (1875/1954)
Teresinha de Oliveira.

BUQUÊ DE JARDIM. - Teresinha Oliveira

Menção Honrosa Extraordinária
"POEMA DA SEMANA" 3/2013
25.01.2013


 
 
 
Teresinha Oliveira


BUQUÊ DE JARDIM.
 
 

 Um buquê de jasmins ou miosótis azuis lá da Ásia
Flores bobas que em canteiro qualquer nascem pródigas
Queria ganhar nessa manhã de Páscoa.
Pedaço de domingo quieto roubado do todo
Onde coelhos logo saltarão.

Manhã com alegria de ovo chocado
Sem morro de terra a subir, já cumprida a promessa.
Pespontar agora a minha, cruz velada, só a mim compete.

Terna Páscoa, onde chegam cedinho
Beija- flores piando aviso com seu canto esquisito
Que as flores vermelhas abriram sob as janelas da sala de jantar.

Eu, com lupa a mirar dois séculos atrás, desejo
O mimo, no despertar logo querido.
Sem chocolate, por já haver saboreado no frio tanto.
Só o buquê delicado, como delicada minha alma agora está
Ao sol, em silêncio e vã reflexão, nessa manhã de domingo.

Tela de Ada Breedveld - Pintora Holandesa.
Teresinha Oliveira.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

ANALGÉSICO. - Teresinha Oliveira


 
Teresinha Oliveira
ANALGÉSICO.
 

 Quando a dor é grande
Não dor de amor, essa hoje sei que é fácil suportar
Basta o tempo e outras calças bem vincadas...
Falo da dor de verdade
Que eletrifica a carne e gera pânico.
Há que se enganá-la com uma boa gargalhada
Se assim não for, é melhor pedir rendição.

 Teresinha Oliveira.
 
 

 " Não há amor que resista quando um homem toma champanhe no sapato de uma mulher e se engasga com uma palmilha o Dr. Scholl.
Phyllis Diller - Atriz Americana.
 

 Taça → Nautilus-Shell Cup - Alemanha - Século XVII

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

MINHOCA. - Teresinha Oliveira


 
 
Teresinha Oliveira

MINHOCA.
 

Bicho encantador essa minhoca.
Tão gorda e saudável que me assusta, quase cobra.
Esquiva se arrasta, a fugir de qualquer luz.
Tento, em vão, apresentar-me.
Afinal , sou a dona do jardim
Da terra cuidada, das flores e grama
De toda pedrinha também.
Mas ela, orgulhosa
Mergulha no solo sem me dar atenção.
Dona Minhoca metida
Dê marcha ré, mesmo na contramão.
Vem cá, eu peço.
Quero lhe apresentar um minhoco
Garboso e esperto.Bonito até, asseguro
Morador de um vaso de antúrios, dentro da terra profunda.
Parece a todo momento dançar a dança do ventre
Já tem fama de bom bailarino.
Vem cá, sua bobona !
Bons partidos assim não são fáceis de encontrar.
Quem sabe...
No futuro, talvez
Ele até peça sua mão.

Teresinha Oliveira.

Para ♥ Lyli e Nunu ♥
Minhas mais ricas rimas.
Amor que aduba meu chão.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Janeiro II. - Teresinha Oliveira

Menção Honrosa
"POEMA DA SEMANA"
1/2013

 
 
 
Teresinha Oliveira
 

 
Janeiro II.
 

É tempo de jogar as sementes ao solo.
Quem sabe ao final do ano
Seja possível salvar parte da colheita.

Como vivo distraída
Facilmente me perco entre ratos e passarinhos.
Assim prometi, cara a cara com o espelho
Zelar pelas minhas.

Tela de William Oliver (1695/1764) - Inglês.
Teresinha Oliveira.

CADEIRA DE SEAGRASS - Teresinha Oliveira

"POETAR" 1/2013

 
 
 
 
 
Teresinha Oliveira
 
 
CADEIRA DE SEAGRASS.

Há tempos namoro na loja da esquina uma cadeira de Seagrass, fibra da longínqua China que olhos oblíquos trançam e retrançam, gerando tudo aquilo que possa ser trançado.
Grama do mar, já me disseram os entendidos desses segredos de capim que ninguém por cá conhece.
Tem ela suaves encantos, e desperta uma sensação de beleza que beira à arte.
Original e magra, por pouco esquál...ida, como dita a moda atual.
Palha e madeira quase criam a imagem de uma ave exótica,dessas pernaltas que todos admiram a elegância mas ninguém sabe o nome.
Como é próprio das aves voarem assustadas ao menor sinal de perigo, a cadeira parece olhar para os lados, ameaçando desabar sob qualquer corpo cansado que inadvertidamente se jogue sobre ela sem apuros, sem observações estéticas, como todo corpo cansado sempre o faz no buscar alívio de suas lidas.
Ah, frágil epifania, apesar de tão linda com suas plumas de caule, não me serves, apesar de cativar.
Preciso de solidez para repousar as noites da minha pesada alma.